quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Vaso (Poema do Álcool)

Olhe mais perto de ti.
Quebraste teus pedaços.
Para todos os lados.

E as serpentes dentro do vaso
Picavam a si e a quem
Feriam os cacos.

Tens que te debater.
Dentro do lago.
Afogue as serpentes.
(E não se esqueça:)
Morra afogado.

Reconstitua o vaso,
O corpo quebrado.
Não evites a dor,
Ela colará teus pedaços.

PLAYER

Eu tenho um DVD player. Suposto, é que ele funcione diversas extensões de arquivos. Possui todas as peças em estado intacto de fábrica: corpo composto de uma caixa metálica com botões em plástico duro e gaveta.  Botões turn on, play, pause, play, stop, play e turn off. Outros botões, de funções menos vitais ao aparelho, estão situados em um controle remoto que, habilmente manejado, manda mensagens em Infra Vermelho para um dispositivo que os reconhece instantaneamente. Entradas e saídas de audio e vídeo com o respectivo cabo de transmissão ao aparelho receptor. Internamente, circuito de leitura, placa dvd, unidade de leitura óptica. Tudo em perfeito estado.

O aparelho reprodutor de conteúdo contido nas unidades de mídia com formatos que variam entre ISO, MPEG-2, CSS, MP2, MP3, PCM, A3 não funciona como se espera. Quando coloco um disco contendo os formados mencionados, ele trava, acusa erro de leitura, ora dá led, antecede a imagem ao som dando um efeito, não tão singular, quando o movimento da personagem é incondizente ao movimento dos lábios.

Não fosse a raiva, seria engraçado.

Adicionado a isso, produz um barulho semi-irreproduzível, em quase palavras, algo como: tzzzz.... tzzzzem... nhiiiiic... zzzzuu.. nheinc...tzzzzz.... nheinc. Então para. Recomeça: zzzzzz... tc... tzzzzc... zein....tsc.. tsc...tsc. Muitas vezes parece arranhar a inanimada e imagética mídia inserida na gaveta que a acolhe e a transporta para a escuridão interna do aparelho reprodutor.

Frustração, raiva, ódio, quero quebrá-lo. Assistência técnica, garantia, reclamar à fábrica. Não. A marca, uma das mais fortes na época da concepção do aparelho, faliu. Minha condição financeira não me permite comprar outro. Quero assistir, no pouco conforto do meu quarto, a um filme, a um documentário, a um concerto musical gravado em formato DVD e meu player não os roda, ou quando sim, pela metade.

No entanto, é um Player esforçado. Percebo isso. Ele continua girando o disco, tentando ler a comédia, romântica ou não, para que eu possa ter acesso ao conteúdo da, até então, dura, fria e de lisa superfície mídia que com o giro vai esquentando no íntimo do device.

Nessas horas eu me pego admirando-o, recuso-me a desligá-lo sem antes observá-lo a tentar concluir seu intransitivo impasse, seu momentâneo propósito. Do desconforto da mobília fico a ouvi-lo grunhir, guinchar, gemer, chorar, chacoalhar, travar cenas, continuá-las descontinuamente, rasgar a linearidade das obras de arte cinematográficas. Num triunfo fracassado, não se deixa desligar pelo controle remoto em minhas mãos, mesmo que eu desfira contra seu receptor de raios IR comandos que o atordoam fazendo de mim a piada.

Ainda na ilusão do poder, levanto-me para puxar o fio da tomada. Eis então, que ele volta a funcionar atiçando minha curiosidade de ver. E um detalhe não me escapa ao pensamento - ele possui algo como um olho em seu interior, enquanto possuo eu esse canhão óptico situado na parte frontal da minha face.

Vanish.........

Vanish.........